TEA: Especialista explica causas, sintomas e tratamento
- Maria Nayara Bezerra Lima

- 26 de abr. de 2023
- 4 min de leitura
Autismo não é uma doença, mas sim um transtorno, por isso não há uma cura, apenas os tratamentos realizados que tem o objetivo de melhorar a qualidade de vida das pessoas que estão dentro do espectro

Durante todo o mês de abril, a equipe do Site Manchete Cariri preparou uma série de reportagens especiais em alusão ao mês de conscientização do Transtorno do Aspectro Autista (TEA).
A Dra. Patrycia Aparecida Moreira Bacurau, Graduação em Medicina pela UFC- Campus Cariri, especialista em Psiquiatria da Infância e Adolescência pela SESAB- HJM/ Bahia e que atende como psiquiatra assistente do CAPS Infantojuvenil da cidade de Iguatu e na Clínica Neuro + (IMEDICA) em Juazeiro do Norte, concedeu entrevista a Psicóloga Maria Nayara, para esclarecer vários pontos em relação ao TEA.
De acordo com Patrycia, o autismo é um transtorno complexo do neurodesenvolvimento que envolve atrasos e comprometimentos nas áreas de interação social e linguagem, além de sintomas emocionais, cognitivos, motores e sensoriais.
Autismo não é uma doença, mas sim um transtorno, por isso não há uma cura, apenas os tratamentos realizados que tem o objetivo de melhorar a qualidade de vida das pessoas que estão dentro do espectro, respeitando suas particularidades.
O principal tratamento é baseado na intervenção multidisciplinar com profissionais como: fonoaudiólogo, psicólogo, psicopedagogo e terapeuta ocupacional. A intervenção através de medicamentos é reservada para as comorbidades e alterações comportamentais específicas.
Quais as causas do autismo?
Na Psiquiatria, diante do conhecimento que dispomos atualmente, não sabemos as causas dos transtornos mentais, dentre eles o autismo. Então falamos sobre os fatores de risco e os dividimos em genéticos e ambientais. Alguns deles são:
Um irmão com autismo
História parental de transtorno mental
Idade materna com mais de 40 anos
Idade paterna entre 40 e 49 anos
Peso ao nascer inferior a 2500 g
Prematuridade (menos de 35 semanas)
Presença de defeitos congênitos
Sexo masculino
Ameaça ao aborto com menos de 20 semanas
É necessário utilizar algum medicamento para o autismo?
A terapia medicamentosa é indicada para um determinado sintoma-alvo, por exemplo: comportamento hipercinético e/ou auto e heteroagressivo, insônia, estereotipia que coloque em risco a integridade do indivíduo, além do tratamento de uma comorbidade como: TDAH, transtorno ansioso, transtorno depressivo, TOC, tique, entre outros.
A partir de que idade o diagnóstico de TEA já pode ser dado?
Para quadros clássicos o diagnóstico já pode ser dado a partir dos 18 meses de idade, ou seja, a partir de um ano e meio.
O que é necessário para se fechar um diagnóstico de TEA?
É necessário o exame clínico que é composto pela realização de uma anamnese de qualidade com o maior número de informações e fontes possíveis (pais, cuidadores, professores escolares e terapeutas multidisciplinares) e pelo exame psíquico do paciente. É preciso observar o paciente muitas vezes em mais de uma ocasião.
Em casos muito leves e com possibilidade de comorbidade com outro transtorno é possível recorrer a aplicação de testes neuropsicológicos com profissionais capacitados. Estes testes são aplicados pelo neuropsicólogo.
Fala-se muito sobre estereotipias no autismo, o que elas são?
Estereotipias são movimentos involuntários, rítmicos, bizarros, coordenados, sem propósito e que desaparecem durante o sono. Exemplos: girar em torno do próprio eixo, balanço do tronco para frente e para trás e chacoalhar os dedos.
Elas são frequentes em crianças autistas, mas também podem ocorrer em pessoas com deficiência intelectual ou que sofrem de alguma privação sensorial.
Existem diferentes graus de autismo? O que diferencia um de outro?
Existem três graus de gravidade no autismo e o que os diferencia é a necessidade de suporte para o indivíduo. Está necessidade se baseia nos déficits em relação a comunicação social e aos comportamentos restritos e repetitivos. São divididos em leve, moderado e grave.
Estes graus não são imutáveis, de forma que um indivíduo pode variar entre eles a depender dos estímulos e tratamento que recebe ou deixa de receber.
Por que o diagnóstico e o tratamento precoce são importantes?
Porque modificam prognóstico. Quando uma criança é diagnosticada dentro do espectro autista precocemente e recebe o devido tratamento, que tem por base a intervenção multidisciplinar, suas chances de apresentar uma melhor evolução no quadro, de maneira a não acumular tantos prejuízos e adaptar-se bem as demandas sociais são maiores.
Quantas consultas são necessárias para se dar um diagnóstico de TEA?
Por se tratar de um diagnóstico clínico, ou seja, que não é realizado através de exames laboratoriais ou de imagem ou através de escalas, a quantidade de consultas vai depender da experiência do profissional e da qualidade e quantidade de informações fornecidas pelos cuidadores e da boa avaliação do paciente em questão.
Os profissionais mais indicados para a realização do diagnóstico são os psiquiatras da infância e adolescência e os neuropediatras.
As informações são fornecidas pelos cuidadores da criança, além dos relatórios escolares e dos profissionais multidisciplinares que já acompanham o paciente (pediatra, fonoaudiólogo, psicólogo, psicopedagogo, terapeuta ocupacional, dentre outros).
Meninos e meninas possuem as mesmas chances de desenvolver autismo?
As pesquisas demonstram um risco de três a quatro vezes maior para ocorrência de autismo no sexo masculino.
Quais sinais podem alertar pais e professores quanto à possibilidade de TEA?
Os principais sinais são referentes ao atraso na fala, dificuldade na interação social, especialmente com os pares (indivíduos da mesma faixa etária), e padrões de comportamento restritos e repetitivos como, por exemplo, extrema dificuldade de modificar a rotina, tendência a repetir movimentos estranhos, apego importante a objetos diferentes, dentre outros.
É possível uma pessoa nascer sem o autismo e ao longo da primeira infância desenvolvê-lo?
Não. O indivíduo já nasce autista. O que pode ocorrer é que ele venha manifestar as alterações comportamentais mais evidentes após um determinado período. Mas depois de uma minuciosa investigação sobre seu desenvolvimento neuropsicomotor é possível perceber que as alterações já existiam, mas eram pouco expressivas.
Qual sua visão a respeito do aumento significativo de diagnósticos de TEA na atualidade?
Vejo esse aumento de prevalência como reflexo de uma melhor investigação e melhora nos critérios diagnósticos. O autismo sempre existiu.
A primeira descrição de um caso de alteração comportamental muito parecido com o que hoje conhecemos como autismo data de 1926 realizada por Grunya Efimovna Sukhareva, psiquiatra nascida na Ucrânia.
O que mudou atualmente foi a percepção social e a melhora na atenção a saúde mental de nossas crianças.






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