Ceará tem a terceira maior fila do INSS do País com 217 mil pedidos travados
- Romas Sousa

- há 3 horas
- 5 min de leitura
Especialistas apontam falta de estrutura, perícias e servidores como principais gargalos.

Aos 70 anos, Iradene Almeida convive com dores constantes nas costas e com a espera por uma resposta do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Costureira ao longo da vida, ela aguarda desde maio de 2025 a concessão da aposentadoria definitiva.
Enquanto isso, tenta complementar a renda com pequenos trabalhos feitos em casa, já que as limitações físicas impostas por artrite reumatoide e hérnias de disco a impedem de manter uma rotina regular de trabalho.
A história de Iradene se soma à de milhares de cearenses que enfrentam a demora na análise de benefícios do INSS.
217.975
pedidos aguardam análise no Ceará, de acordo com os dados mais recentes do Portal da Transparência (setembro), com destaque para os benefícios assistenciais (BPC), que concentram a maior parte da fila e os maiores tempos de espera
O Ceará é o terceiro estado do País com mais gente nessa fila do INSS, perdendo apenas para São Paulo (423.802) e Minas Gerais (245.551).
Veja os estados com maiores filas do INSS
São Paulo: 423.802 pedidos
Minas Gerais: 245.551 pedidos
Ceará: 217.975 pedidos
Bahia: 203.254 pedidos
Rio de Janeiro: 168.875 pedidos
Pernambuco: 146.588 pedidos
Rio Grande do Sul: 130.654 pedidos
Paraná: 130.582 pedidos
Pará: 115.024 pedidos
Maranhão: 114.291 pedidos
Aos 70 anos, Iradene Almeida convive com dores constantes nas costas e com a espera por uma resposta do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Costureira ao longo da vida, ela aguarda desde maio de 2025 a concessão da aposentadoria definitiva.
Enquanto isso, tenta complementar a renda com pequenos trabalhos feitos em casa, já que as limitações físicas impostas por artrite reumatoide e hérnias de disco a impedem de manter uma rotina regular de trabalho.
A história de Iradene se soma à de milhares de cearenses que enfrentam a demora na análise de benefícios do INSS.
217.975
pedidos aguardam análise no Ceará, de acordo com os dados mais recentes do Portal da Transparência (setembro), com destaque para os benefícios assistenciais (BPC), que concentram a maior parte da fila e os maiores tempos de espera
O Ceará é o terceiro estado do País com mais gente nessa fila do INSS, perdendo apenas para São Paulo (423.802) e Minas Gerais (245.551).
Veja os estados com maiores filas do INSS
São Paulo: 423.802 pedidos
Minas Gerais: 245.551 pedidos
Ceará: 217.975 pedidos
Bahia: 203.254 pedidos
Rio de Janeiro: 168.875 pedidos
Pernambuco: 146.588 pedidos
Rio Grande do Sul: 130.654 pedidos
Paraná: 130.582 pedidos
Pará: 115.024 pedidos
Maranhão: 114.291 pedidos
'Farra do INSS'
As filas do INSS só pioram o cenário de crise no instituto. No ano passado, estourou o esquema de fraudes denominada "Farra do INSS", que desviou R$ 6,3 bilhões de mais de 4 milhões de aposentados e pensionistas brasileiros.
Segundo a Polícia Federal, pelo menos 11 entidades associativas são suspeitas de realizar descontos indevidos nos benefícios de aposentados e pensionistas.
Mandados de busca, apreensão e de prisão foram realizados em 13 estados e no Distrito Federal, incluindo o Ceará.
Na semana passada, o Governo Federal alcançou a marca de R$ 2,84 bilhões pagos no acordo de ressarcimento a 4,1 milhões de aposentados e pensionistas em todo o país.
No Ceará, os pagamentos já somam R$ 181,17 milhões, beneficiando 274.626 segurados que tiveram descontos associativos indevidos identificados em benefícios.
Ceará entre os estados com maior espera
Embora o tempo médio nacional de análise dos pedidos do INSS seja de 48 dias, a Região Nordeste apresenta os piores indicadores do País.
Em setembro do ano passado, o tempo médio de espera chegou a 54 dias, colocando o Ceará entre os estados mais afetados pela lentidão do sistema.
A situação se agravou ao longo do último ano. Entre outubro de 2024 e outubro de 2025, a fila nacional saltou de 1,9 milhão para 2,8 milhões de pedidos, um crescimento de quase 50%.
No caso dos benefícios assistenciais, como o BPC, o prazo médio de concessão pode ultrapassar 160 dias, devido à complexidade das análises e à necessidade de perícias e checagens de renda.
No Ceará, os dados apontam que mais de 80 mil pedidos de BPC estão parados há mais de 45 dias, enquanto outros 60 mil benefícios por incapacidade também aguardam análise além do prazo considerado adequado.
A reportagem do Diário do Nordeste entrou em contato com o INSS e a Dataprev para mais esclarecimentos, mas não obteve resposta até a publicação deste material.
“A doença existe, mas o benefício não vem”
A demora afeta diretamente quem depende do auxílio para sobreviver. Moradora de Paraipaba, na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), Erondina Rodrigues, de 58 anos, enfrenta há anos a espera pelo auxílio-doença.
Diagnosticada com hérnia de disco, ela teve o pedido negado inicialmente e precisou recorrer à Justiça. Para comparecer às perícias e audiências em Fortaleza, Erondina conta que muitas vezes precisa pedir dinheiro emprestado até para a passagem de ônibus.
O INSS diz que a doença não existe, mesmo com todos os laudos".
Erondina Rodrigues
Situação semelhante vive Océlio Silva, de 48 anos, morador de Eusébio, também na Grande Fortaleza.
Após anos trabalhando no descarregamento de carretas, desenvolveu múltiplas hérnias de disco e bursites nos ombros.
Ele deu entrada no pedido de auxílio-doença em fevereiro de 2024, mas a perícia só foi realizada meses depois e resultou em indeferimento.
“O médico mal olhou meus exames. Hoje eu vivo de ajuda da família e devo mais de R$ 10 mil”, conta.
Ainda que questionados sobre o impacto da perícia médica federal na fila do INSS no Ceará, a Agência Nacional de Médicos Peritos não retornou a reportagem até esta publicação.
Falta de estrutura e perícia travam o sistema
Para o advogado previdenciário Paulo Albuquerque, a demora não é um problema pontual, mas estrutural.
Segundo ele, o INSS descumpre sistematicamente o prazo legal de 30 dias para análise dos pedidos.
A fila cresce porque faltam servidores, faltam peritos e não há reposição por meio de concursos. No Nordeste, a capilaridade do INSS é muito fraca".
Paulo Albuquerque
Advogado previdenciário
O advogado destaca ainda que grande parte da fila não depende exclusivamente do INSS, mas da Perícia Médica Federal e da análise de dados pela Dataprev.
No caso do BPC, por exemplo, apenas 13% dos pedidos estão sob responsabilidade direta do INSS. O restante aguarda recálculo de renda ou outras etapas burocráticas, o que prolonga ainda mais a espera
Diante da demora, muitos segurados acabam recorrendo ao Judiciário apenas para obter uma resposta. “Muitas ações não são para conceder o benefício, mas para obrigar o INSS a analisar o pedido”, afirma Paulo Albuquerque.
Enquanto isso, para quem está na ponta, a espera se traduz em dor, insegurança e endividamento. “Se eu não tomar remédio para dor, eu não ando”, diz Iradene. “Mas tem remédio que eu simplesmente não posso comprar.”
A reportagem também questionou o INSS sobre a perícia médica, mas não obteve retorno. A Associação Nacional dos Médicos Peritos foi procurada, mas também não retornou a demanda. A matéria será atualizada quando houver respostas aos questionamentos.





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