Presidente do Conselho da SAF do Fortaleza fala sobre dívida e futuro de Marcelo Paz
- Romas Sousa

- 21 de out. de 2025
- 5 min de leitura
Fabiano Barreira conversou com exclusividade com o Diário do Nordeste

Os bastidores do Fortaleza Esporte Clube se acirram nos últimos dias. Em um momento crítico na Série A, com alto risco de rebaixamento, o cenário esportivo ruim também enfatizou um conflito interno, com posicionamentos de personagens como Marcelo Paz, CEO do time, e Eduardo Girão, ex-presidente e hoje Senador da República. Assim, o Diário do Nordeste buscou uma posição do Conselho de Administração da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) sobre o cenário atual.
Em contato com a reportagem, o empresário Fabiano Barreira, presidente do Conselho de Administração da SAF desde abril de 2025, explicou situações envolvendo a dívida do clube e também o futuro de Paz.
Conselheiro desde 2012, Fabiano é torcedor e teve diversas atribuições ao longo dos últimos anos, como assessor da presidência (2017) e também diretor de planejamento (2021). Sócio do Grupo Serval, também contribuiu como Patrocinador Master da equipe na temporada de 2016.
Entrevista com Fabiano Barreira, presidente do Conselho da SAF do Fortaleza
O Fortaleza tem uma dívida de R$ 100 milhões?
“Sim, o clube possui dívida, resultado de um período em que a estrutura de custos superou a capacidade de receita. Isso não representa descontrole: endividamento é comum em instituições esportivas e no mercado corporativo, desde que haja lastro e capacidade de pagamento, e o Fortaleza possui ambos. O clube tem ativos relevantes, como jogadores formados na base, atletas do elenco profissional, patrimônio e credibilidade no mercado, que possibilitam reorganizar receitas e amortizar o passivo. E mesmo após a aprovação da SAF, há um processo burocrático extenso de cisão entre a Associação e a SAF, o que torna inviável imaginar que a simples aprovação estatutária resultaria em captação imediata.
Estamos trabalhando com responsabilidade financeira e planejamento para equalizar o cenário, independentemente do desfecho esportivo. Se houver rebaixamento, haverá redimensionamento orçamentário, revisão de elenco e ajustes administrativos; se houver permanência, haverá reavaliação estratégica do mesmo modo, porque o desempenho de 2025 exige respostas. Esse tipo de movimento, inclusive, é comum no futebol. Portanto, não existe terra arrasada. Há ativos, credibilidade e mecanismos concretos de reequilíbrio, e o Fortaleza vai reorganizar sua operação para seguir sustentável, competitivo e financeiramente saudável.”
Por que a SAF do Fortaleza não foi vendida?
"Aqui é importante historiarmos todo o passo a passo da criação da SAF. O processo foi amplamente discutido com Conselho Deliberativo, gestores e sócios da Associação. O que ficou definido à época era que tentaríamos fazer uma operação de venda minoritária de forma a manter o controle e posteriormente seguir com eventuais novas captações. Tão logo a criação da SAF foi aprovada, o clube precisou cumprir um processo técnico e burocrático obrigatório, que inclui a cisão entre Associação e SAF, a separação e precificação de ativos e outras etapas jurídicas e financeiras antes de chegar ao mercado. Concomitante a isso foi feito um processo seletivo para escolher a instituição financeira, a XP Investimentos, que nos assessora e conduz as tratativas, em que o Fortaleza buscou investidores para uma operação minoritária, inédita no futebol brasileiro. No entanto, o cenário macroeconômico de juros elevados, instabilidade política e tributária e baixa disposição de investidores a assumir risco, reduziu drasticamente o apetite do mercado. Em um ambiente no qual a renda fixa entrega até 15% ao ano, operações de maior volatilidade, como o futebol, perdem competitividade.
Além disso, o país atravessa quatro anos sem IPOs e praticamente sem novos movimentos relevantes de SAF, o que mostra que não se trata de um problema do Fortaleza, mas de contexto nacional. Outros clubes, inclusive, tentaram seguir com operações que não foram adiante. Diante desse cenário, a nossa operação tornou-se inviável naquele momento. O clube segue com responsabilidade e maturidade institucional, mantendo o tema em aberto para futura discussão, seja retomando o modelo minoritário quando o mercado estiver favorável, seja avaliando, no tempo certo e junto ao Conselho e aos sócios do clube, outros formatos. O importante é que qualquer movimento ocorra com segurança jurídica, responsabilidade financeira e alinhamento ao projeto esportivo do Fortaleza”.
Qual a avaliação sobre o trabalho de Marcelo Paz no Fortaleza?
“O trabalho do Marcelo Paz é o mais vitorioso da história do Fortaleza e isso não pode ser reescrito por causa de um ano ruim. Em oito temporadas, o clube alcançou um patamar que jamais havia sequer sonhado: sete anos consecutivos na Série A, três participações em Libertadores, vice-campeonato da Sul-Americana e projeção nacional e internacional. Um ciclo dessa dimensão não se apaga por alguns meses de resultados abaixo do esperado. Criticar decisões e cobrar correções faz parte, ele próprio sempre assumiu responsabilidades, mas o que se faz hoje com sua imagem ultrapassa o limite da crítica e beira o linchamento. É injusto atacar a honra de quem construiu um dos maiores projetos do futebol brasileiro recente, ainda mais quando até pouco tempo era aplaudido por todos. Marcelo é, antes de tudo, torcedor, pai de família, e nenhum resultado justifica a violência moral e pessoal dirigida a ele.
O clube seguirá cobrando, corrigindo rumos e tomando decisões firmes. Logo após a definição sobre permanência ou rebaixamento, haverá reunião com o CEO para tratar do projeto de 2026, pois mudanças serão necessárias em qualquer cenário. Vamos discutir no tempo certo, com responsabilidade. Mas é preciso deixar claro: o Fortaleza não rasga a sua história. Ciclos terminam, ajustes acontecem, mas gratidão, equilíbrio e justiça também fazem parte da nossa identidade institucional. As decisões serão tomadas pelo bem do Fortaleza, sem revanchismo, sem passionalidade e com respeito a quem ajudou a construir tudo o que vivemos”.
Como a SAF percebe as críticas do torcedor do Fortaleza?
“As críticas do torcedor são compreensíveis e, neste momento, absolutamente pertinentes. Os resultados de 2025 foram muito abaixo do esperado, e o processo precisa ser revisto com profundidade. O que não podemos admitir é que a frustração ultrapasse o limite da crítica e se transforme em violência moral, agressões, ataques pessoais, ameaças a familiares ou episódios como o ocorrido recentemente com a família do humorista Aluísio Júnior. Isso é inaceitável em qualquer circunstância e não representa a torcida do Fortaleza, que sempre foi reconhecida pela emoção, não pela intolerância. Esse tipo de comportamento afasta profissionais, fere a instituição e não contribui para a solução dos problemas.
Nós também sofremos, também sentimos indignação e também somos torcedores. A diferença é que, enquanto o torcedor pode extravasar, nós precisamos acordar no dia seguinte com lucidez e responsabilidade para tomar decisões, corrigir rotas e trabalhar ainda mais. O debate é legítimo, a cobrança é legítima, mas a violência não. Há quem hoje questione métodos, modelos e decisões, mas é importante lembrar que todas as escolhas feitas até aqui foram respaldadas eleitoralmente. Seguiremos ouvindo a torcida, corrigindo o que for necessário e tomando decisões firmes pelo bem do Fortaleza, sempre com diálogo, respeito e responsabilidade institucional.”





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