Bandido bom, é bandido salvo.
- Romas Sousa

- 31 de mar. de 2024
- 3 min de leitura
Na Igreja, ela encontrou o perdão, a consolação e o acolhimento.

Entendi perfeitamente o que o grupelho do Boulos quis dizer com o meme publicado na Sexta-Feira da Paixão (para quem não viu, está aqui). No presente caso, eles utilizaram uma frase costumeiramente atribuída à direita conservadora, colocaram-na na boca dos soldados romanos que crucificaram Cristo e contam com a reação dos adversários para ganhar engajamento nas redes sociais.
Trata-se de um truque velho e manjado, mas nem por isso menos sujo. É preciso estar mergulhado em uma terrível escuridão da alma para utilizar o momento mais solene e doloroso do Cristianismo como forma de atacar os próprios cristãos. Como diz um querido amigo, o escritor Luiz Carreira, estamos doentes de política. Resta provado, mais uma vez, que a esquerda não é uma ideologia, mas uma doença da alma.
Com a frase “Bandido bom é bandido morto” pronunciada por um militar romano, diante do corpo de Jesus crucificado, a claque do Boulos quer, de maneira nada sutil, transmitir a ideia de que seus adversários políticos são hipócritas. O que, aliás, não deixa de ser verdade em certa medida: há muitos direitistas hipócritas.
A hipocrisia, na definição atribuída a Oscar Wilde, é “o tributo que o vício paga a virtude”. Em outras palavras, o hipócrita é aquele que finge defender valores elevados. Mas, em última instância, quem precisa fingir defender determinados valores reconhece a importância desses valores. Por exemplo, o sujeito que faz a defesa da propriedade privada — um princípio cristão contemplado pela Doutrina Social da Igreja —, reconhece que ela é um bem e um direito natural.
Depreende-se disso que chamar um esquerdista de hipócrita é um elogio. Os esquerdistas não reconhecem os valores mais básicos do cristianismo; eles os rejeitam por princípio. Chamar um comunista de hipócrita é como chamar um assassino de batedor de carteiras.
Mas vamos agora pensar naquele militar romano. O Evangelho de São Marcos relata as suas verdadeiras palavras diante da cruz:
Jesus deu um grande brado e expirou. O véu do templo rasgou-se então de alto a baixo em duas partes. O centurião que estava diante de Jesus, ao ver que ele tinha expirado assim, disse: Este homem era realmente o Filho de Deus. (Mc 15:39)
O Evangelho de Mateus acrescenta alguns detalhes à mesma cena:
De novo dando Jesus um alto brado, expirou. O véu do santuário rasgou-se em duas partes de alto a baixo, tremeu a terra, fenderam-se as rochas, abriram-se os túmulos e muitos corpos de santos, já falecidos, foram ressuscitados; e saindo dos túmulos depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos. O centurião e os que com ele guardavam a Jesus, vendo o terremoto e o que se passara, tiveram muito medo e disseram: Verdadeiramente este era o Filho de Deus. (Mt 27:50-54)
Lucas, que também é autor dos Atos dos Apóstolos, igualmente cita as palavras do centurião em seu Evangelho:
Jesus, clamando em alta voz, disse: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. Tendo dito isto, expirou. Vendo o centurião o que acontecera, deu glória a Deus, dizendo: Realmente este homem era justo. (Lc 23:46-47)
Por fim, o Evangelho de João, embora não mencione as palavras do oficial romano, não diverge dos autores sinópticos:
Chegando, porém, a Jesus, como o vissem já morto, não lhe quebraram as pernas, mas um dos soldados abriu-lhe o lado com uma lança e, imediatamente, saiu sangue e água. (Jo 19, 33-34)
Uma antiga tradição identifica este militar romano que abriu o lado de Jesus. Seu apelido seria Longinus (lança, em latim). É o nosso popular São Longuinho. Tendo admitido aquele homem não como bandido, mas como o Filho de Deus, Longuinho se tornou o santo que encontra as coisas que parecem perdidas. Por impossível que pareça, até mesmo a fé dos esquerdistas pode ser encontrada quando seus olhos são lavados com o sangue e a água que jorram do lado aberto de Cristo. A minha, por exemplo, eu reencontrei. Talvez por isso Longuinho seja um dos meus santos do coração.
Na Missa de Lava-Pés celebrada em uma paróquia do interior do Ceará, uma das pessoas que representaram os discípulos de Cristo foi uma jovem que até pouco tempo atrás estava presa. Na Igreja, ela encontrou o perdão, a consolação e o acolhimento. Arrependeu-se de seus pecados e hoje tem uma vida nova. Aos companheiros do Boulos, quero dizer que mesmo eles podem obter o perdão pelos seus pecados. Para quem defende os valores eternos, aqueles que estão muito acima da política, bandido bom é bandido salvo. É bandido que se arrependeu. É bandido que pediu perdão. É bandido que contemplou a face da Verdade, dependurada na cruz, e disse:
— Verdadeiramente este era o Filho de Deus.





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